3 de dezembro de 2013

sobre padrão de beleza e auto-imagem longe de casa

Uma das coisas que mais ouço de meninas aqui é como elas se sentem mais bonitas e valorizadas  aqui. Que é como se não houvesse uma imposição do padrão e elas pudessem ser elas mesmas e ainda assim serem desejadas. 

Eu acho isso verdadeiro em partes. 

Em partes por que não acredito que seja só de fora. O que acontece com a maioria é que aqui elas se dão maior liberdade pra serem elas mesmas. E sem todo o stress de suprimir o seu verdadeiro eu, por consequência você acaba se sentindo mais feliz consigo mesma e refletindo isso pros demais. 

Em partes por que realmente aqui não há tanta comercialização do sexy e do sexo. Ainda existe um padrão, não podemos negar. Mas ele é ligeiramente mais diverso e tolerante que o brasileiro. Aqui o cabelo pode ser cacheado, o peito não precisa ser empinado e na maior parte do tempo ta todo mundo vestido bem a vontade e confortável. 

Porém, eu particularmente, sinto que existe essa "naturalização" da beleza como padrão. Enquanto no Brasil todas tem que "work hard" pra serem consideradas bonitinhas, aqui a impressão que eu tenho é que você tem que parecer deslumbrante sem nada de maquiagem, sem lavar os cabelos e usando calças de moletom. O que é realmente muito fácil pras mulheres típicas holandesas... Que tem os genes que as colocam naturalmente nesse padrão sem precisar se esforçar nenhum centímetro pra isso. 
Pra mim parece que se você se arruma um pouquinho que seja, você ta tentando "too hard" e se você vai na onda com elas você nunca vai se destacar. 

Outro fator que me incomoda muito em relação ao padrão de beleza aqui é que, num lugar tão homogêneo como esse (que eles JURAM que é diversificado, mas não), qualquer pessoa que saia ligeiramente do que é o padrão holandês: alto, loiro, magro; acaba chamando atenção e não de um jeito bom. Eu fico com a sensação de que sempre serei só um estereótipo ou um fetiche. 

Por mais que os padrões estéticos brasileiros sejam extremamente opressivos, lá eu me sentia como se estivesse nadando contra o oceano com mais um milhão de brasileiras que não se encaixam e nunca se encaixarão. Mas que fazem parte da nossa sociedade multi-cultural, e realmente se encaixam lá como "brasileira típica". 
Aqui eu me sinto como um peixe desengonçado nadando em um aquário sendo observada por milhares  de voyeurs. A água em si não apresenta grandes ameaça, mas é tudo artificial e will never fells like home. E adicione a isso os creepys apontando pro aquário esperando alguns tipo de comportamentos e extremamente decepcionados quando não é exatamente o que acontece. 

Talvez a maioria das meninas não irá concordar com isso, e dizer que nunca se sentiram tão amadas quanto aqui. Mas aí eu pergunto: Quando disso não vem simplesmente do fato de que você se libertou da maioria das amarras sociais do Brasil? E quantas pessoas realmente te enxergam como um indivíduo e não somente um reflexo de um determinado estereótipo? 

Acho complicado. A sociedade holandesa pode ser muito mais generosa com as mulheres do que a brasileira irá chegar tão cedo. Porém acho burrice achar que tudo é perfeito sempre e que a falta de um problema específico que temos no Brasil, anula o fato deles também terem problemas aqui. 

Por exemplo, eu realmente acredito que a sociedade holandesa é sexualizada DE MENOS. Mas aí é papo pra outro post! 


Um comentário:

  1. Interessante! Concordo que muitas vezes os extrangeiros enxergam em nós um estereótipo...

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