25 de agosto de 2014

Amsterdam

Estranho parar pra pensar que nunca parei pra escrever verdadeiramente sobre a cidade que da nome ao blog... E não só da nome ao blog, como deu vida a ele. Uma parte de mim vai pertencer a Amsterdam pra todo o sempre e chega a ser difícil explicar o por que. 
Amsterdam tem sua fama, tem um nome, tem atrativos que piscam em neon vermelho pra todos os turistas. Mas não é dessa Amsterdam que vou falar... Até por que essa não era a minha Amsterdam. 
A minha Amsterdam era meu cantinho de paz. Era sobre rodas, era verde e tinha um dos céus mais lindos que já vi nessa vida. 


Amsterdam me encantou nos primeiros minutos. Mesmo com o visual ainda meio cinza e com resquícios da neve que havia assolado o país nos meses anteriores. A paisagem era simplesmente de tirar o folego. Pra alguém que morava em São Paulo, terra de prédios, cinza, fios, fumaça, carros, gente, correria, superlotação, pressa, prédios, grafites, carros, trânsito... Amsterdam era uma brisa de ar fresco. De um ar fresco de um jeito que eu nunca havia provado. 


Eu cresci em cidade do interior, e sempre gostei da vibe "cozy" que existe nesses lugares. Muita gente não gosta. Prefere o anonimato da cidade grande. E o que sempre me encantou demais em Amsterdam é que ela é exatamente o balanço entre esses dois lados. É uma capital com alma de cidade de interior. 
Geograficamente Amsterdam é muito pequena. Todos os bairros são acessíveis de bike a partir do centro. Alguns vão demorar 5 minutos, outros meia hora... Mas mesmo assim é super fácil. Existem muitos parques, pracinhas, mercadinhos e lojinhas de bairro... Centrinhos comerciais com tudo aquilo que você precisa ali há 5 minutinhos de casa. Mas também tem aeroporto, estação de trem internacional, balada, bar, lojas dos mais diversos tipos onde é possível encontrar de TUDO. 
Tem festival de música pra multidões, e cinema ao ar livre pra 200 pessoas na beira do lago. Existe espaço pra todos os tipos de pessoas serem quem elas bem entenderem ser. Mas você ainda conhece seus vizinhos pelo nome da bom dia/boa tarde/boa noite pra todos. 


Meu lugar favorito em Amsterdam era o Vondelpark. Maior e principal parque da cidade. Durante o verão ele é simplesmente mágico. O verão em Amsterdam é mágico. E o parque é o lugar que concentra isso. Todos os tipos de pessoa vão pra lá pra jogar bola, fazer churrasco, beber, fazer um som, assistir a um show, fazer um piquenique, tomar sol de biquíni e protetor solar, ou só curtir uma ressaca de boa. 
Eu tinha 3 lugares especiais: um próximo a um lago, onde ia e ficava sentada, apenas observando a paisagem estonteante. Outro próximo a entrada, onde sempre fazíamos piqueniques e tomávamos nossas cervejas. E o último eu gostava de ir nos dias mais ou menos, onde as pessoas levavam os cachorros pra brincar. Eu sentava lá e ficava observando os cachorros correndo de um lado pro outro atrás de bolas ou pessoas e aquilo somehow me animava. 
O parque era o caminho principal para qualquer coisa que quisesse fazer em Amsterdam. Era um trajeto de bike que eu poderia quase fazer de olhos fechados. Quantas noites voltando pra casa eu não ficava simplesmente olhando ao redor enquanto pedalava e me perguntava como podia um lugar fazer com que eu me sentisse tão bem. 


Amsterdam era um lugar engraçado, sendo modesta... É uma cidade em que puteiros dividem calçada com creches, que ficam na mesma rua da igreja em que o novo rei tomou posse e que tem uma escultura no formato de peitos bem na frente de uma das entradas. 
Você vê peitos, pintos, maconha, e outras coisas do gênero penduradas em todos os lugares, tudo é muito natural e quase não existe tabu pra nada. Ao mesmo tempo em que se tem uma população modestamente conservadora e bem menos sexual que nós. Você pode passear pelo red light district, principal rua de puteiros, conhecer alguém e trocar idéia apenas na amizade. Você quase nunca vai ver desrespeito nos bares e baladas, mas você sempre vai ver gente muito bêbada. 


Amsterdam tem espaço pra todo mundo. No matter qual a sua galera, o que você gosta de fazer ou com quem você quer conviver. Você vai encontrar um lugar pra pertencer, pra chamar de seu e existir sem pressão. Onde todos podem encontrar lugares pra pertencer e chamarem de seu. É onde o congestionamento é de bikes, o chão é de paralelepípedos, e as casas são estreitas e compridas. É ter barcos ancorados na porta de casa, bicicletas acorrentadas a qualquer coisa que não tenha como sair do lugar, e ter chuva e vento como elementos constantes. É celebrar toda e qualquer aparição do sol com picnics ao ar livre. 
De todas as coisas que sinto falta do meu ano laranja, Amsterdam é a principal. Sim, eu viajei. Sim, eu amava minha família como se fosse de sangue. Sim, a Holanda como um todo era maravilhosa. Mas nada, nem lugar nenhum me faz sentir como Amsterdam fazia. 



23 de junho de 2014

o não-retorno

Tenho estado meio ausente. Meio ainda é um eufemismo pra minha situação aqui... É que voltar trouxe muitas questões à tona, a maioria das quais eu ainda não estou preparada pra lidar. 
Já estou a caminho do meu quarto mês de Brasil. E passou voando, ao mesmo tempo que parece que Amsterdam ficou há três vidas atrás. Ou não, porque na verdade eu ainda me sinto espiritualmente presa aquele lugar. Mesmo que meu corpo esteja aqui há algum tempo. 
Rever a família e amigos é bom. Rever os lugares favoritos, comer as comidas que sentia saudade, se sentir em casa de novo. Só que não em casa de verdade. A sensação que dá é que eu nunca mais estarei em casa novamente. É tão clichê e tão verdadeiro aquela frasezinha que diz que uma parte nossa fica e nunca mais volta, e a que volta nunca mais será a mesma sem o que ficou. blá blá blá. 
A comida não é tão saborosa quanto a gente lembrava. Os amigos já não são mais tão divertidos. Os lugares continuam exatamente os mesmos desde a última vez que os viu. Fora uma novidadezinha aqui e ali, tudo continua igual. Exceto por eu mesma. 
Eu estou longe de ser a pessoa que era antes de viajar. E ainda mais longe da pessoa que era enquanto lá. É difícil reencontrar uma identidade no meio dessas duas pessoas, é difícil não se perder. 
Hoje foi um dia daqueles em que tudo estava indo bem até resolver ver fotos antigas. Como dói relembrar o tanto que amei aquelas crianças. Como dói ver a felicidade ali, quase palpável. Eu era feliz e sabia. Era tão feliz que não sabia o que fazer com tanta felicidade. As vezes ficava triste por ter felicidade demais e incapacidade de lidar e aproveitar por inteiro. Quando paro pra pensar em como eu era feliz, chega a ser ridículo. Essas fotos tem no meu rosto, nos meus olhos, nos menores detalhes o tanto de felicidade que eu tinha em mãos. Melhor nem compararmos com as fotos recentes. 
Não quero transformar esse texto num "confissões de uma deprimida", a vida vai indo como tem que ir. É só que sempre demorei a lidar com emoções e sentimentos. E o de encerramento de uma fase tão boa da vida é especialmente doloroso. 
Principalmente ao ver os rostos das minhas crianças. Eu posso ter lembranças maravilhosas em Berlin, Atenas, Paris... São sonhos de uma vida toda que jamais havia pensado em realizar. Mas o amor que eu tinha por aquelas crianças foi algo que eu nunca nem havia sonhado, muito menos almejado. Se posso dar uma dica as au pairs que as vezes ainda aparecem por aqui querendo saber mais sobre o programa é: AMEM SUAS CRIANÇAS. Vão ter dias que tudo vai ser horrível, mas no final os dias dos quais você irá se lembrar serão aqueles em que tudo foi maravilhoso. E essas memórias vão ser as únicas coisas que você terá delas pro resto da sua vida. 
Esse texto se chama "o não retorno" justamente por que essa é a sensação. Eu não voltei. A Isabella que estava lá, ficou lá. Existiu só enquanto lá. Aqui eu estou tendo que renascer. Um dia depois do outro. Estou vagarosamente aprendendo a enxergar uma certa beleza em São Paulo. Uma relação que oscila entre amor e ódio de minuto em minuto. 
Eu ainda não sei o que será da minha vida. Meu sonho europeu ainda não acabou, mesmo que eu já esteja ouvindo o despertador tocando ao fundo, e a luz do dia começando a entrar pelas pálpebras. Eu ainda estou sonhando. Presa nesse estágio. Em que a realidade do despertar já está chegando a nossa consciência, ao mesmo tempo em que o sonho ainda está ali na frente dos seus olhos. 
Não é fácil estar de volta. Nunca achei que seria. Mas é necessário seguir em frente e ver pra que esquina do mundo a vida irá me levar. Se um dia conseguir me despedir de Amsterdam. 

retratos de uma outra vida.

15 de abril de 2014

são paulo.

São Paulo will eat you up. E não feliz, ela vai te mastigar e te cuspir de volta. São Paulo não tem tempo pra sentimentalismos, é que nem um amante desonesto... Vai te usar enquanto puder, e até pode te dar um ou outro momento de satisfação e felicidade, mas no final é você quem acaba devastado quando ela decidir que não te ama mais. 
A vida em São Paulo é só para os fortes, eles dizem. Pra quem não é preguiçoso e quer vencer na vida. Eles só esquecem de te dizer que pra isso você deixará de ter uma vida. 
São Paulo não tem tempo pra bobagens. São Paulo is about eficiência. São Paulo não quer suas desculpas. 
Eu entendo o fascínio que São Paulo pode exercer pra alguns. Até eu me deixo levar as vezes. É como um feitiço, que faz com que você olhe pra todo esse cinza e veja possibilidades. São Paulo é uma cidade pra todos. Ela aceita qualquer um que a queira. Sem distinções. Não posso dizer que tendo crescido em cidade de interior, não seja nenhum pouquinho fascinada pelo anonimato e diversidade em São Paulo... O problema é que aceitando todos, ela acaba não amando ninguém. 

olhando assim até parece quase charmosinha. 

Dias como hoje me fazem ter certeza de que não existe amor em São Paulo. Pelo menos não pros fodidos como eu. Que moram longe do trabalho, que madrugam, que enfrentam uma jornada antes de sequer iniciar a jornada de trabalho. Hoje está chovendo. Isso já é motivo suficiente pra fazer a cidade parar. Sem exageros. A cidade realmente para. 
Todos os dias pra vir pro trabalho eu pego dois ônibus e o metro. O primeiro as 6h, pra começar a trabalhar as 8h. E eles estão SEMPRE lotados. Não consigo entender quem vê isso como um meio de vida válido. Isso pra mim não é vida. Não há dinheiro no mundo que pague pela minha qualidade de vida. 
E quanto mais tempo eu passo nessa cidade, mais isso rodeia a minha mente. Como encontrar o equilíbrio? Como encontrar todo esse amor que dizem existir em São Paulo? Como reprogramar minha mente pra apreciar isso tudo? 
Todos já haviam me dito que a readaptação não era fácil. Que a gente nunca se acostuma completamente. Que a saudade sempre vai bater. Não sei por que, mas eu sinto que pra mim vai um pouquinho além disso. Não é só saudades. É inconformidade. É não querer aceitar e me acomodar com o que tenho aqui. Novamente, isso não é vida. Não pra mim ao menos. 



22 de janeiro de 2014

Au Pair na Holanda - Guia introdutório pra quem ta chegando agora

Aparentemente ser au pair na Holanda é o novo hype do momento e todo dia aparece alguém new perguntando the same old questions... Então pra parar de repetir as mesmas coisas todos os dias nos grupos/inbox/mensagens de fumaça que todo mundo adora mandar... Here we go! yey! 
(E eu já peço desculpas antecipadamente por qualquer ironia excessiva ou grosseria, esse é apenas #meujeitinho

- Dá pra viver com 300 euros? 

Olha, eu até agora não vi ninguém morrer aqui, então assim... eu ACHO que pra viver dá sim. Agora o que você vai conseguir fazer com os seus 300 euros é apenas por sua conta e risco. Pense que você não precisa pagar aluguel, nem comida... Então esses euros são seus pra gastar com o que bem entender. 
E não, quase ninguém que eu conheço recebe extra. Nem da família aqui, ou da família do Brasil. 

- Como vocês fazem pra viajar tanto? 

Conhece uma palavrinha chamada: PLANEJAMENTO? Então. Por enquanto ainda não inventaram nenhuma maquina que faz com que a gente feche os olhos e vá automaticamente de um país pra outro, então a gente precisa fazer bom uso disso. Outra palavrinha mágica também é: PESQUISA (aka Google). Quer saber como ir de lugar X a lugar Y? Existem um milhão de sites que você pode consultar. Ou tu aprende a se virar sozinha com essas coisas, ou não vai pra lugar nenhum... Então porque não começar a praticar desde já hein?????? :)

- Precisa mesmo aprender holandês? 

Olha meu bem, eu acho que o MÍNIMO que você tem que fazer quando pretende se mudar pra um outro país, é ter um pouquinho de interesse na língua falada lá, né não? Que maravilha que aqui todo mundo fala inglês, porém a língua oficial é o holandês e é com ele que o país funciona. NÃO, o trem não tem a menor obrigação de falar em inglês também, muito menos a tv ou as crianças! E por mais difícil que seja aprender holandês, o básico, só pra conseguir um nível infantil de comunicação, com um pouco de boa vontade é fácil de aprender! 

- É muito caro fazer compras aí? 

Olha, é muito caro fazer compra no Brasil? É muito caro fazer compra aqui? Como você deve imaginar (ou ao menos deveria)... DEPENDE. Depende do que você quer comprar. De onde você vai comprar. De quanto você compra. Você pode tanto ir num flea market, quanto na Primark, ou na Zara fazer compras... A partir do momento que você aprender onde pode ir pra caber no seu bolso, você vai aprender o quanto gastar. 

- O que precisa levar? 

Assim, eu acho meio importante trazer roupas e calcinhas sabe? Tem algo que seja INDISPENSÁVEL pra você viver? Trás ué. Tem algo que você quer MUITO trazer? Trás ué. Mas aqui é bem fácil encontrar praticamente tudo. Traga o suficiente pra sobreviver o primeiro mês e depois você aprende onde comprar. Não fica deixando coisa pra trás, que depois gastar seu dinheiro, que já é contado, com coisa que você JÁ tinha no Brasil mas não trouxe é meio desnecessário. Então sem drama gente, bom senso é tudo que você precisa nessa hora apenas. 

- Qual é a melhor agência? 

Qual bolo de chocolate é o melhor bolo de chocolate? (desculpa, metáfora de gorda) Gente! Não existe melhor bolo de chocolate! Do mesmo jeito que não existe melhor agência! Cada agência tem seu processo, seus custos, seus prós e seus contras... Entre em contato com todas, veja quais te atendem e converse com elas. Vá com aquela que te passar mais confiança. Não adianta fazer um cabo de guerra, cada um vai achar uma coisa diferente e ter uma experiência diferente. Dê uma olhada no que já foi dito sobre as agências, e já foi dito MUITA COISA por aí e entre em contato com as que gostar mais. Fim. 

Novamente me desculpem se fui um pouco grossa além da conta. Mas gente, a internet ta aí, o google ta aí, e do mesmo jeito que você achou esse meu post, você pode achar muito mais informação! Parem de ser preguiçosas e dependentes! Não queiram que as pessoas deem tudo pronto pra vocês! Busquem informação e soluções por conta própria também! Você só tem a ganhar com isso! 
É isso por hoje pessoal. 


Busquem conhecimento!!!

31 de dezembro de 2013

sobre final de ano

Finais de ano sempre foram épocas marcantes pra mim. Não sei dizer exatamente por que, mas o sentimento de encerramento de ciclos e recomeço sempre pegou forte pra mim nessa época e uma das minhas grandes preocupações foram sobre como seria passar por isso longe de tudo. 

parece que faz uma vida, mas faz só exatamente um ano mesmo. 

Hoje já é dia 31, ainda não acabou 2013. Mas é quase lá. 
2011 foi um ano razoável. Foi o final de um ciclo. Quando ele acabou, acabou a fase segura da minha vida na qual eu estive por um longo tempo... E aí veio 2012. 
2012 foi um ano complicado, pra ser delicada. Foi um ano de recomeço, onde nada era certeza e milhares de oportunidades se abriam, ao mesmo tempo em que não. Foi um ano que me senti perdida, insegura, sem saber ao certo se tudo aquilo em que acreditava estava correto. E mesmo com a esperança surgida no finalzinho dele, ainda existia uma grande insegurança me dominando e fazendo com que o início de 2013 fosse de muita ansiedade. 
E devo admitir que 2013 não começou dos mais fáceis. Mas acabou se tornando um ano de confirmações. Sim, eu estava certa. Sim, valeu a pena. Sim, eu consigo. Sim, é possível. Sim, essa vida existe. 

seja bem vinda Isabella. fazia tempo que estava te esperando. att, seu eu antigo.

Acho complicado chamar 2013 de um ano de descobrimentos, por que eu meio que sabia,no fundo no fundo, tudo o que eu "descobri" em 2013. Só não tinha o que era necessário pra realmente acreditar.
Tenho tanto pra falar sobre 2013, que ano incrível foi esse! Mas ao mesmo tempo, o sentimento é tão overwhelming que não consigo articular meus pensamentos de maneira que possa criar uma retrospectiva razoável. 
2013 foi o ano de deixar tudo o que é desnecessário pra trás. Aprender a dar valor ao que importa realmente e carregar apenas aquilo que é indispensável. Seja no coração, ou nas malas minúsculas das companhias low cost
Foi o ano de realizar sonhos que eu nem sabia que tinha. E de descobrir paixões onde jamais imaginei que existiriam. Foi o ano de viajar. E viajando, me encontrar. E encontrar outras pessoas, só pra deixá-las novamente alguns dias depois. Mas não sem levar alguma coisa comigo. 
De ganhar uma nova família. E 4 filhos. E um amor por eles de um tamanho que eu nem sabia que era possível ter. E de passar a entender o tanto que foi difícil pra minha mãe me deixar vir pra cá, só de pensar em ter que dizer adeus pra eles em aproximadamente dois meses. 

minha foto favorita de todos os tempos. 

Foi ano de abraçar uma nova cultura, uma nova língua, uma nova cidade. E ser abraçada de volta. Ainda que do seu jeito particularmente frio e brusco. É ter dificuldades em pensar na vida sem as pequenas coisas daqui, do mesmo jeito que foi difícil pensar na vida aqui sem as pequenas coisas de lá! Do mesmo jeito que ainda não achei um substituto pra paçoca, acredito eu que jamais encontrarei outro pra chocopasta! 
Descobrir um estilo de vida que nem nos meus sonhos mais ambiciosos eu imaginei que poderia conhecer. Transformar esse estilo de vida em meu. Comer mais vegetais. Tomar menos refrigerante. Ficar mais ao ar livre. Comemorar e valorizar dias de sol. Ter a bicicleta como parceira indispensável. Descobrir grandes  e pequenas coisas e transformá-las em indispensáveis. Afinal ter 100% de água potável é tão importante quanto poder ir e vir pra balada de bicicleta sem depender de carona! 
Aprender a controlar orçamento. E a se arriscar. E se arriscar sem sair do orçamento.E economizar, sem vergonha de ser mão de vaca. E gastar com aquilo que merece ser gastado. Aprender a ter e balancear prioridades... Prioridades, vontades, sonhos, desejos... 

dos sonhos que se tinha...

Mas eu acredito que no final das contas a lição mais importante que ficou foi: acreditar mais em mim mesma e em todos os meus instintos. Deixar a voz de dentro falar e tomar conta. Se deixar levar por aquilo que o momento ta pedindo. Me deixar ser. 
A Holanda me ensinou muitas coisas. É impossível querer falar de every single one ou dizer qual foi a grande moral da história. 2013 ta acabando, tudo que eu vivi e aprendi nele, não tão cedo. 
2013 não abriu os meus olhos. Escancarou, rasgou. Abriu portas, janelas, estradas, derrubou muros e paredões. 2014 está chegando com a responsabilidade de herdar esse fardo. Que eu bem acredito que não será fácil de ser levado pra frente não. 
Em 2013 eu fugi pra me encontrar. Clichê, porém verdadeiro. Foi necessário atravessar um oceano, conhecer outras culturas, outros países, outras pessoas... Mas finalmente cheguei a mim mesma. E tenho estado aqui pelos últimos meses. E com a proximidade do final de mais um ciclo, vem chegando a insegurança e ansiedade de novo. 
Mas se tem algo que aprendi nesse ano (e vamos ser clichês mais uma vez. muito clichês...) é que o que não mata, fortalece. E que mudar, reiniciar a vida sem todos os old habits que carregávamos apenas por costume, pode ser melhor que anos de terapia! 

dos momentos de felicidade gritada escrachada  

Que a felicidade me encontre novamente em 2014 do mesmo jeito que encontrou em 2013. E que não só a mim, mas que encontre a todos vocês e quem mais estiver precisando dela! 

10 de dezembro de 2013

Berlin

Berlin se tornou meu lugar favorito de todos pelos quais passei. Não é simples nem fácil explicar qual é a mágica que existe nessa cidade que faz com que todos se apaixonem, e se fosse só comigo poderia dizer que é aquela bobageirinha de "vibe" da cidade que sempre uso pra justificar meus gostos esdrúxulos de viajante. Mas até hoje não conheci uma pessoa sequer que não tenha amado e se encantado por Berlin. 


Eu acredito que historicamente falando, Berlin já é por si só uma das cidades mais interessantes de se visitar. Foi o centro de muita coisa importante do último século, que é recente o suficiente pra que todos ainda sintam na pele as marcas de tudo que aconteceu. 
Mas aí é que mora a mágica, eu acredito. Berlin é uma cidade que optou pela superação. Deixou todo o seu passado pra trás, mas sem tentar apagá-lo ou esquece-lo, muito pelo contrário, é impossível andar pela cidade e não ser lembrado constantemente de todos os horrores. Porém, ao mesmo tempo, ela continua se provando uma nova cidade a cada esquina. É uma mistura que mexe com a cabeça da gente, lado a lado aquilo que já foi com aquilo que conseguiu ser hoje, esfregando na nossa cara que é possível sim deixar pra trás um sistema decadente e se reerguer das cinzas. 
Não me atrevo a dizer que a vida lá hoje em dia seja perfeita, ou quais são as circunstâncias em que acontece tudo isso... Mas o que posso dizer, como turista, é que Berlin encontrou um espaço pra que todos, independente do seu nível de esquisitice, possa respirar na cidade. É quase como uma São Paulo que não te esmaga, não te sufoca e que não é arrogante. É uma cidade alternativa, underground, onde constantemente podemos ver velhinhas punk rock de cabelo roxo e arte de rua sendo considerada arte. 
Notei que Berlin ainda se separa do resto da Alemanha, como se mesmo depois do fim do muro e do regime soviético e da guerra fria, Berlin ainda permanece como uma ilha. Mas uma ilha que  se recusa a afundar. Berlin tem essa coisa única, essa atmosfera mágica, que mesmo que quisesse, não conseguiria se fundir ao restante da Alemanha tradicional. É um pouco como Amsterdam, mas menos overrated
Berlin passou por poucas e boas, e acredito que isso é um dos fatores que faça com que haja um sub-consciente coletivo de que tudo que está ali hoje em dia é extremamente especial. Muitas coisas diferentes poderiam ter afetado o destino de Berlin permanentemente e trazido um fim completamente diferente pra cidade. E eu acredito que é isso... Quando se passa por poucas e boas e se sobrevive, a gente dá outro valor as coisas. E ver a capacidade e coragem que se tem de pegar toda a sua história, tudo aquilo de pior que já fez e já fizeram com você e expor pra todo o mundo ver (literalmente) e apenas torcer pra que isso faça com que ninguém nunca mais no mundo (incluindo você mesmo) repita algo parecido é merecedor de admiração. 
É impossível pisar em Berlin e não sentir que a cidade mudou você. Pelo menos um pouquinho. É impossível reviver toda aquela história, ver tudo aquilo que sempre pareceram histórias distantes na frente dos seus olhos, e não refletir por um segundo.  
Berlin é maravilhosa. Berlin é maravilhante. 

I put my faith in you Berlin.

sobre descobertas

das coisas que descobrimos nessa vida de intercambista: 

  • - é possível sim passar 1 ano sem passar uma peça de roupa que seja
  • - qualquer comida é comível 
  • - não importa o quanto você economiza, você sempre sente que poderia fazer mais 
  • - de repente aqueles lanches horrorosos da promoção passam a ser deliciosos 
  • - você vai sentir saudades das coisas que você mais abominava
  • - primeiro você sofre por não saber onde encontrar as coisas mais baratas. depois você sofre por que não consegue parar de comprar as coisas por que são baratas demais. 
  • - junk food will never be junk enough 
  • - suas habilidades em coisas como costura e cozinha melhoram a níveis significativos e você se sente uma perfeita dona de casa
  • - até estragar completamente alguma roupa/comida e passar a ter certeza que não nasceu pra isso nunca na vida
  • - nossa música nacional é sempre melhor
  • - sua tolerância é diretamente proporcional a sua falta de paciência em lidar com a merda alheia 
  • - nenhum sapo é anfíbio demais que não possa ser engolido 
  • - você descobre que sempre sabe o que é melhor pra você, admitindo ou não, seja pelo acerto ou não
  • - uma refeição com um arroz que deu certo já é suficiente pra ser considerada banquete 
  • - não importa quantos amigos internacionais se faça. os brasileiros sempre serão mais legais
  • - gambiarra passa a ser seu nome do meio
  • - listas, listas e listas: de onde ir, o que comprar, o que fazer, o que ta faltando na despensa
  • - a noção de tempo e temperatura se distorce completamente
  • - você descobre lados seus que jamais imaginou que sequer existiam
  • - sua maior saudade: arroz, bife e batata frita



3 de dezembro de 2013

sobre padrão de beleza e auto-imagem longe de casa

Uma das coisas que mais ouço de meninas aqui é como elas se sentem mais bonitas e valorizadas  aqui. Que é como se não houvesse uma imposição do padrão e elas pudessem ser elas mesmas e ainda assim serem desejadas. 

Eu acho isso verdadeiro em partes. 

Em partes por que não acredito que seja só de fora. O que acontece com a maioria é que aqui elas se dão maior liberdade pra serem elas mesmas. E sem todo o stress de suprimir o seu verdadeiro eu, por consequência você acaba se sentindo mais feliz consigo mesma e refletindo isso pros demais. 

Em partes por que realmente aqui não há tanta comercialização do sexy e do sexo. Ainda existe um padrão, não podemos negar. Mas ele é ligeiramente mais diverso e tolerante que o brasileiro. Aqui o cabelo pode ser cacheado, o peito não precisa ser empinado e na maior parte do tempo ta todo mundo vestido bem a vontade e confortável. 

Porém, eu particularmente, sinto que existe essa "naturalização" da beleza como padrão. Enquanto no Brasil todas tem que "work hard" pra serem consideradas bonitinhas, aqui a impressão que eu tenho é que você tem que parecer deslumbrante sem nada de maquiagem, sem lavar os cabelos e usando calças de moletom. O que é realmente muito fácil pras mulheres típicas holandesas... Que tem os genes que as colocam naturalmente nesse padrão sem precisar se esforçar nenhum centímetro pra isso. 
Pra mim parece que se você se arruma um pouquinho que seja, você ta tentando "too hard" e se você vai na onda com elas você nunca vai se destacar. 

Outro fator que me incomoda muito em relação ao padrão de beleza aqui é que, num lugar tão homogêneo como esse (que eles JURAM que é diversificado, mas não), qualquer pessoa que saia ligeiramente do que é o padrão holandês: alto, loiro, magro; acaba chamando atenção e não de um jeito bom. Eu fico com a sensação de que sempre serei só um estereótipo ou um fetiche. 

Por mais que os padrões estéticos brasileiros sejam extremamente opressivos, lá eu me sentia como se estivesse nadando contra o oceano com mais um milhão de brasileiras que não se encaixam e nunca se encaixarão. Mas que fazem parte da nossa sociedade multi-cultural, e realmente se encaixam lá como "brasileira típica". 
Aqui eu me sinto como um peixe desengonçado nadando em um aquário sendo observada por milhares  de voyeurs. A água em si não apresenta grandes ameaça, mas é tudo artificial e will never fells like home. E adicione a isso os creepys apontando pro aquário esperando alguns tipo de comportamentos e extremamente decepcionados quando não é exatamente o que acontece. 

Talvez a maioria das meninas não irá concordar com isso, e dizer que nunca se sentiram tão amadas quanto aqui. Mas aí eu pergunto: Quando disso não vem simplesmente do fato de que você se libertou da maioria das amarras sociais do Brasil? E quantas pessoas realmente te enxergam como um indivíduo e não somente um reflexo de um determinado estereótipo? 

Acho complicado. A sociedade holandesa pode ser muito mais generosa com as mulheres do que a brasileira irá chegar tão cedo. Porém acho burrice achar que tudo é perfeito sempre e que a falta de um problema específico que temos no Brasil, anula o fato deles também terem problemas aqui. 

Por exemplo, eu realmente acredito que a sociedade holandesa é sexualizada DE MENOS. Mas aí é papo pra outro post! 


25 de novembro de 2013

sobre voltar

A tão temida hora ta chegando, batendo a porta e logo ali depois da curva... O que me faz pensar e pensar e pensar... E por isso aqui vão alguns pensamentos aleatórios que a proximidade com a hora da volta faz com que apareçam na minha cabeça: 

- Acho que não sei mais me comunicar em português. 
- A gente descobre quem são os verdadeiros amigos e quem não faz a menor falta. 
- Não consigo me visualizar dentro de um metrô lotado nunca mais na vida. 
- Existe vida sem bicicleta? 
- Comida boa, me espere que to chegando!  
- Situações de desespero geram amizades de desespero.
- Não existe homem no mundo como o homem brasileiro. 
- Não existem bebidas no mundo como as bebidas brasileiras.
- Exceto pela cerveja. Como voltar a beber cerveja brasileira? 
- Eu e homens holandeses somos duas coisas que não combinam. 
- Gays, cade os gays? não vejo a hora de ver os gays!
- Arroz bife batata frita arroz bife batata frita arroz bife batata frita 
- Rio de janeiro ME AGUARDE
- Como sobrevive sem 9292???? 
- What's going to happen next? 
- Assim que chegar no Brasil preciso de um churrasco. E depois eu quero um almoço de domingo completo. E bolo de cenoura. E café da manhã. E almoço quente. E todas as comidas. 
- Acho que vou jogar tudo pro alto de vez. 
- Acho que vou pesquisar opções de carreira na minha área. 
- Acho que vou ser au pair de novo.
- Acho que quero me acabar de comer primeiro.
- Arrepios de pensar em São Paulo.
- Não joga a criança pela janela. Não joga a criança pela janela. Não joga a criança pela janela. Falta só mais um pouquinho. 
- Como é que vou viver sem essas crianças, meu deus?????????
- Jesus, vou ter que começar tudo do zero de novo... 
- Posso rasgar meu diploma e começar outra faculdade? 
- Rio de Janeiro, cadê você? 
- Será que da tempo de viajar mais por aqui? 
- Ainda terei amigos no Brasil?
- Como farei com meus amigos daqui? 
- AAAAAAAAAAAAAAARGHHHHHHHHHHH
- Acho que vou tirar uma nap. 


28 de outubro de 2013

sobre amor

lembro que no primeiro dia ele perguntou por que eu tava dormindo na casa dele e quando eu iria embora. no segundo dia ele perguntou o que eu ainda tava fazendo na casa dele e por que eu não tinha casa. na primeira semana ele reclamou que não conseguia falar comigo. no primeiro mês ele aprendeu as primeiras palavras em inglês. no segundo mês ele perguntou quando que eu iria embora e se ele teria que voltar pra creche se eu fosse. no quarto mês ele falou que não queria que eu fosse embora, mas só por que ele não queria voltar pra creche. durante o verão ele catou pedrinhas na praia pra trazer de presente pra mim. e no outono ele me disse que sentiu saudades e que gostou muito de eu ter voltado pra casa depois de uma semana viajando. e no final do inverno eu vou ter que dizer adeus. pra ele, pros outros, e pra metade do meu coração (ou mais!) que vai ficar pra trás com eles. e quem diria que meu primeiro coração verdadeiramente partido seria por uma cabeça loira da voz rouca de pouco mais de um metro de altura e nem 5 anos completos ainda? como dizem por aí... a gente sempre acaba encontrando o amor nos lugares mais inesperados.